Ninguém vai ditar normas à China, diz Xi em discurso festivo

Foto: Reuters/EstadãoConteúdo
Cláudia Trevisan

Xi Jinping frustou a expectativa do mercado – e possivelmente de Donald Trump – de que usaria o discurso de celebração dos 40 anos do processo de reforma e abertura da China para anunciar novas transformações da segunda maior economia do mundo que levassem ao fim da guerra comercial com os Estados Unidos.

Com uma retórica ideológica e nacionalista, Xi se referiu à milenar civilização chinesa para dizer que nenhum outro país está em posição de ditar o que o antigo Império do Meio deve fazer – uma referência velada ao presidente americano e à sua exigência de que Pequim abandone políticas industriais que colocam o Estado por trás do desenvolvimento de tecnologias que dominarão a economia do Século 21.

O líder chinês prometeu manter o caminho de reforma e abertura, mas não apresentou nenhuma medida concreta nesse sentido. Enquanto ele falava, os mercados acionários da Ásia caíam, em razão do temor de que a guerra comercial com os EUA se agrave, depois da frágil trégua de 90 dias alcançada no mês passado. O humor dos investidores azedou ainda mais quando Xi declarou que “reforma e abertura nunca são fáceis” e observou que a China poderá enfrentar “dificuldades inimagináveis” à frente.

As atenções se voltam agora para a conferência econômica anual dos líderes chineses, que será realizada nesta semana. O objetivo do encontro é definir medidas para estabilizar o crescimento chinês, que apresentou sinais de fragilidade nos últimos meses. Como parte da desaceleração decorre de dificuldades do setor privado, é possível que sejam anunciadas reformas ou medidas de apoio a empresas não-estatais.

Mas no discurso de segunda-feira, Xi não apresentou planos para a reestruturação da economia. No topo da sua lista de prioridades estava a manutenção do Partido Comunista no comando e no controle da sociedade chinesa, com a “missão histórica” de adaptar o marxismo à realidade atual do mundo. Xi adotou um tom triunfalista ao lembrar das conquistas das últimas quatro décadas, período no qual seu país se transformou na segunda maior economia, na maior potência comercial e no maior detentor de reservas internacionais do mundo.

Também se referiu ao passado milenar e lembrou que a China é o único país do mundo com uma história contínua de 5.000 anos. Deixando claro que considera o modelo chinês “exportável”, Xi afirmou que o sucesso dos últimos 40 anos pode ser um exemplo para países em desenvolvimento que buscam progresso econômico.

Sem fazer referência a Trump ou aos EUA, Xi propôs uma “nova forma de relações internacionais”, com respeito a diferentes modelos de desenvolvimento e sem “bullying” entre Estados. Em meio à disputa com Trump, Xi declarou que a China respeita a ordem internacional e apóia um sistema multilateral de comércio “aberto, transparente, inclusivo e não-discriminatório.”

Ao se referir a Hong Kong, Macau e Taiwan, ele afirmou que a China não abrirá mão de “nem uma polegada” do território que julga ser seu. Pequim considera Taiwan uma província rebelde, que só não foi reincorporada à China por ter suporte dos EUA.

Idealizador das reformas tiraram 800 milhões de chineses da pobreza, o pragmático Deng Xiaoping ganhou pouco destaque na cerimônia que celebrou sua “revolução”. O foco da noite esteve em Xi.

Seu discurso mesclou narrativas do passado glorioso e do sucesso do Partido Comunista para apelar a sentimentos nacionalistas dos chineses, um elemento usado com frequência na política externa de Pequim. Segundo Xi, a China está no processo de “se levantar, ficar rica e se fortalecer”. Depois de 1h20, ele encerrou o discurso com a promessa de que os chineses criarão “novos milagres”, que “impressionarão o mundo”.

Notibras

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