LEIA O ARTIGO: Com o Nordeste atravessado na garganta

Arte/TH

A boçalidade do presidente Jair Bolsonaro parece não ter limites, e não produz apenas bravatas. Ele foi capaz de manifestar, publicamente, seu preconceito racial contra o Nordeste e os nordestinos. E isso – pasmem – aconteceu num café da manhã realizado com jornalistas de outros países. Aos correspondentes internacionais da imprensa mundial, Bolsonaro atacou dois governadores da região. Mas ao fazê-lo, usou um termo pejorativo com o qual os migrantes nordestinos eram e continuam sendo tratados no Sul e Sudeste.

Para fugir da fome, das doenças, do abandono, da subnutrição, da falta de perspectivas quaisquer, do esquecimento perpetrado pelos “coronéis” e pelas oligarquias rurais que dominaram secularmente os estados do Nordeste, milhões de sertanejos rumaram para outras regiões, como também o Centro-Oeste e Norte. A história registra que foi um dos maiores fluxos migratórios em massa da humanidade. E isso aconteceu dentro de uma mesma nação, o que é raro do ponto de vista histórico e geopolítico internacional.

Perdurou ao longo de oito décadas, pelo menos, no século XX. Eles eram chamados de “cabeças-chatas”, “baianos” ou “paraíbas”. A mesma expressão verbalizada pelo presidente durante um café da manhã com jornalistas estrangeiros. Mas não foi apenas uma ofensa ao povo nordestino, e sim a manifestação do ódio e desprezo contra a população e todo o contexto do respectivo processo civilizatório, o que inclui a cultura e etnia, antes flagelada por mazelas genéticas decorrentes da subnutrição e inexistência de políticas públicas de saúde.

Reverso retórico e prático

Mais do que isso, por trás da repugnante declaração do presidente, há a franca intenção de prejudicar a região. Ele já está fazendo isso, cortando programas sociais e investimentos essenciais para o desenvolvimento socioeconômico. Os estados do Nordeste são os de maior taxa de desemprego, os mais frágeis economicamente, os desamparados. Com o advento dos governos federais e estaduais do PT, a região passou a reverter seu quadro histórico de atraso e pobreza, crescendo vigorosamente e melhorando seu quadro social.

No atual governo, não só a retórica oficial de reparação histórica é revertida, mas fundamentalmente a prática. Não por acaso, a gigantesca reação, que veio sublinhada na Carta dos Governadores do Nordeste. Além de atacar os estados nordestinos, cortando verbas, o presidente violou os artigos 19 e 37 da Constituição. Tal erro ocorreu ao determinar que o governo federal exclua qualquer ação em benefício de dois estados. Maranhão e Paraíba, no caso, são os alvos da ira preconceituosa do mandatário-mor da República.

Mas a intenção de perseguir não é direcionada apenas a esses dois, mas a todos os nove estados da região. Ferir a Constituição Federal, portanto, configura crime de responsabilidade por parte do presidente da República, o que o torna passível de sofrer impeachment, punição prevista a quem comete tal delito. A “guerra” contra o Nordeste tem um precedente recente, pois Bolsonaro perdeu, fragorosamente, no 1º e 2º turno das eleições presidenciais de 2018, em todos as nove unidades nordestinas da Federação. Ele não engoliu até hoje.

SÉRGIO FONTENELE / Jornalista / Pensar Piauí

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